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Chega o fim do ano e algumas pessoas costumam fazer uma reflexão do ano que se passou avaliando experiências e emoções que foram vivenciadas. Já outras pessoas preferem esquecer aquele ano que de “feliz” não teve nada. Logo após essa reflexão sempre vem aquela famosa listinha de metas para o próximo ano que já começa com tanta “responsabilidade”. E uma pergunta bastante comum nessa época seria …porque nunca consigo realizar as minhas resoluções de Ano Novo?

Sabemos que 2020 não foi um ano comum… A pandemia nos proporcionou experiências boas e ruins e principalmente “diferentes”. Aprendemos a trabalhar no formato “home office”, passamos a usar mais as redes sociais para conversar com os amigos e desenvolvemos novas “habilidades” como cozinhar, ler, fazer exercícios físicos em casa e outras atividades que foram experimentadas pela primeira vez.
Essas novas experiências nos ajudaram lidar com o isolamento, o tédio e a ansiedade. Assim, em 2020 as pessoas desenvolveram novos hábitos realizando novas atividades e não “decidindo realizar” coisas diferentes. Acontece que é exatamente assim que os hábitos funcionam.
De acordo com Wendy Wood, professora de psicologia da University of Southern California e autora de Good Habits, Bad Habits, os hábitos são “formados fazendo”, e não planejando ou aprendendo. Cientistas que estudam hábitos descobriram que eles são controlados por partes do cérebro que são diferentes e mais profundas do que aquelas usadas para tomar decisões diárias (Steinglass e Walsh 2016). Faz sentido, então, que apenas decidir mudar um hábito raramente funcione. O que nos leva às resoluções de ano novo. As resoluções geralmente são feitas sobre hábitos, não sobre decisões cuidadosamente pensadas.

A partir de 1º de janeiro, vou parar de beber café / comer açúcar / roer as unhas / jogar minhas roupas no chão” – você pode preencher o espaço em branco. Todos esses são hábitos (fazemos sem pensar). Mas a ciência atual sugere que essas resoluções não os afetarão. Woods concorda que “os sistemas de memória de longo prazo na formação de hábitos não mudam com novas resoluções”.

Só porque sou psiquiatra não significa que estou acima de tomar – e quebrar – resoluções. Já fiz isso várias vezes. Se eu pudesse dar uma sugestão ela seria: NÃO façam metas de Ano Novo… uma vez que elas só conseguem fazer as pessoas se sentirem pior do que já se sentem.


Talvez este ano temos a oportunidade de “capturar” e continuar essas mudanças que já fizemos e se tornaram habituais durante nossas vidas fechadas decorrentes da pandemia. Agora o truque é continuar. Dê um nome para capturá-lo. Reconheça os hábitos de que você gosta. Dê nome a eles e observe quando, como e onde você os faz. Eles podem estar passando por você sem aviso prévio, mas eles estão lá. Não faça nada extravagante. Depois de reconhecer o hábito o deixe ficar. Pense em como esse novo hábito vai se encaixar na sua vida antiga (essa é a parte mais complicada).
Em poucos meses a sua vida pandêmica começará a se transformar na sua vida pré-pandemica. Este ano, em vez de começar novos comportamentos, tente capturar os que você já faz. Eles são os seus novos hábitos.
Assim, desejo a todos um Ano de Feliz hábitos velhos.

. Referências Wood W (2019) Good Habits, Bad Habits, Ferrar, Straus and Giroux, Nova York. Steinglass JE e Walsh BT (2016) Neurobiological model of the persistence of anorexis nervosa, Journal of Eating Disorders, 4:19.